Talvez nunca se tenha investido tanto no Brasil em pesquisas sobre os consumidores e seus hábitos quanto nesta década em que chamou a atenção da mídia, dos sociólogos e obviamente de anunciantes e suas agências de publicidade o crescimento exponencial das chamadas classes C e D de renda. Com a estabilidade monetária, os programas de renda, notadamente o Bolsa Família, a redução das taxas de juros e a expansão mais acelerada da economia, milhões de brasileiros passaram a ter acesso às gôndolas dos supermercados, às prateleiras das farmácias, vendinhas e grandes lojas de departamento. Indústria, comércio, bancos e financeiras passaram a mirar nesse “novo” consumidor.
Apesar disso, ainda pouco se conhece sobre os gostos e os costumes de grandes grupos de consumidores. Um caso exemplar é o constituído pelos evangélicos, que, mantido o ritmo de expansão das duas últimas décadas, chegará a 2010 representando cerca de um quarto da população brasileira.
No entanto, é um contingente pouco estudado pelos institutos de pesquisa e pelos anunciantes, embora se possa “adivinhar” algumas tendências dessas pessoas que as tornam muito atraentes como consumidoras. Concentrada nas classes C e D de renda, a turma dos evangélicos pentecostais (a que mais cresceu em número de adeptos ultimamente entre todos os grupos religiosos no país) não segue a “resignação típica” de alguns segmentos das classes menos favorecidas. Ao contrário, muitos obedecem à chamada “teologia da prosperidade”, em que o progresso social, a conquista de bens e a evolução dos padrões de consumo são mais do que valorizados. São verdadeiros dogmas a ser cumpridos. Uma oportunidade e tanto, dessa forma, para fornecedores de bens e serviços.
Além disso, existem fortes indícios de que esse grupo de evangélicos tende a se interessar mais pelas “marcas mais poderosas do mercado, seja porque inovação e experimentação não são seus traços mais típicos, seja porque o progresso social se materializa mais plenamente por meio de tais marcas”.
São observações como essas que tornam “As Marcas no Divã” interessante, principalmente, claro, para o leitor envolvido de alguma forma em marketing, comportamento do consumidor e comunicação, mas não só ele.
Jaime Troiano é considerado no meio publicitário um dos maiores especialistas em marcas e dirige há 16 anos uma empresa que atua nessa área. Assim como no caso dos evangélicos, ele destrincha no seu livro outros exemplos em que fatores essenciais para a definição da estratégia de vendas de uma empresa deixam de ser devidamente explorados por falta de dados que mostrem como o consumidor toma decisões. Um capítulo é dedicado aos instrumentos que medem a eficácia dos investimentos em marketing, um aspecto pouco abordado até hoje no relacionamento das empresas e suas agências de publicidade. É nessa trilha que se encaixa também o debate sobre o valor das marcas.

Fonte: Valor Econômico